terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cristianismo - Quem escreveu os evangelhos?

A atribuição da autoria dos evangelhos a Mateus, Marcos, Lucas e João provavelmente aconteceu de forma tardia. Com exceção do texto joanino, relatos parecem ter se baseado fortemente em Marcos.

Os Evangelhos do Novo Testamento, quatro relatos sobre a vida de Jesus aceitos por todas as igrejas cristãs, tradicionalmente são atribuídos a dois dos Doze Apóstolos (Mateus e João, filho de Zebedeu), a um companheiro do apóstolo Pedro (Marcos) e a um colaborador de São Paulo (Lucas). Para os atuais estudiosos da Bíblia, no entanto, o mais provável é que nenhuma dessas autorias tradicionais esteja totalmente correta. Embora muitos dos fatos contados pelos evangelistas possam realmente remontar à vida de Jesus, inconsistências e contradições deixam claro que nenhum de seus discípulos originais sentou-se pessoalmente para escrever uma biografia de Cristo.

"O que está claro é que os títulos que temos são um fenômeno editorial, que veio mais tarde", resume Luiz Felipe Ribeiro, professor de pós-graduação em história do cristianismo antigo da Universidade de Brasília (UnB), que está concluindo seu doutorado na Universidade de Toronto (Canadá). "Os títulos demoraram para aparecer no corpo do texto. Os primeiros papiros com a fórmula atual para os títulos - 'Evangelho segundo Marcos' ou 'Evangelho segundo João', por exemplo - são de meados do século 3 [mais de 150 anos depois da data em que os textos teriam sido escritos]."

De acordo com Ribeiro, os estudos sobre como os livros da época recebiam seus títulos e atribuições de autoria também revelam que essa fórmula (envolvendo uma estrutura gramatical do grego conhecida como acusativo) é curiosamente única dos Evangelhos; nenhum copista anterior teria pensado em falar da "Ilíada segundo Homero", por exemplo. "É muito improvável que essa mesma maneira de designar os textos surgisse de forma independente em quatro deles ao mesmo tempo. Por isso, tudo indica que se trata de uma mudança na maneira como os Evangelhos passaram a circular naquela época", diz ele.


Testemunho antigo?

Além dos títulos explícitos em papiros, a primeira referência a quatro Evangelhos escritos pelos autores que conhecemos tradicionalmente -- Mateus, Marcos, Lucas e João, nessa ordem -- vem do bispo Ireneu de Lyon, escrevendo por volta do 190. No começo do mesmo século, outro bispo, Papias (cuja obra original não sobreviveu, mas acabou sendo citada por escritores cristãos posteriores), menciona apenas Mateus e Marcos.

A poucas décadas de "distância" dos apóstolos originais, Papias até parece dispor de informações mais confiáveis, mas uma série de coisas em suas afirmações não batem. Primeiro, ele parece se referir a Mateus como uma simples coleção de ditos de Jesus (logia, em grego), escritos originalmente em aramaico, a língua do dia-a-dia na Palestina do século 1. No entanto, Mateus é na verdade uma narrativa, e o texto que temos parece ter sido composto diretamente em grego. Já Marcos seria o secretário ou intérprete de Pedro, o qual teria anotado ("de forma desordenada", diz Papias), as pregações do líder dos apóstolos em Roma.

Além do fato de, na verdade, o Evangelho de Marcos ser uma narrativa altamente estruturada, sem sinal de desordem, ele não parece o tipo de coisa que um ex-colaborador de Pedro escreveria, afirma Ribeiro. "Existe, na verdade, uma hostilidade grande em relação a Pedro no Evangelho de Marcos, e talvez até uma rejeição de todos os Doze, que são retratados como covardes", diz o pesquisador. Todos os Evangelhos mostram Pedro vacilando e até negando Jesus, mas enquanto Mateus atenua isso com a famosa cena em que Jesus promete a seu apóstolo "as chaves do Reino do Céu", Marcos não apenas omite qualquer menção a isso como é bem provável que, originalmente, nem mostrasse Jesus aparecendo aos apóstolos depois de ressuscitar.

É que os mais antigos manuscritos do Evangelho de Marcos terminam de forma meio abrupta, no versículo 8 do capítulo 16. O relato se encerra com Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé -- três seguidoras de Jesus -- indo ao sepulcro de Cristo. Lá, porém, encontram a tumba aberta e um misterioso rapaz de roupas brancas (talvez um anjo) dizendo que Jesus tinha ressuscitado. As mulheres, então, fogem assustadas, "e nada diziam a ninguém, porque temiam". O mais provável é que, mais tarde, foram adicionados os versículos de 9 a 20, que encerram o Evangelho que temos hoje e contêm as aparições do Jesus ressuscitado a seus seguidores.


Marcos, o primeiro?

Na verdade, apesar de a ordem dos Evangelhos nas Bíblias atuais começar com Mateus, Marcos é quase certamente o mais antigo de todos os textos, talvez escrito um pouco antes do ano 70, quando o Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos. O consenso entre os estudiosos é que Mateus e Lucas usaram Marcos como a base de seus próprios Evangelhos.

"Ambos se baseiam na estrutura narrativa de Marcos; Mateus e Lucas foram aumentados acrescentando-se a Marcos extratos de uma coletânea de ditos de Jesus que hoje está perdida", escreve Geza Vermes, professor emérito de estudos judaicos da Universidade de Oxford, em seu livro "Quem é quem na época de Jesus" (Editora Record), recém-lançado no Brasil. "Quando Lucas e Mateus concordam entre si a respeito de algo, também concordam com Marcos; quando são diferentes de Marcos, também são diferentes entre si", diz Ribeiro.

Além disso, Marcos é o evangelista que mais coloca expressões aramaicas na boca de Jesus ou das pessoas que entram em contato com ele, como o uso de Éfata ("abre-te") para curar um surdo-mudo e Talitha cum ("menina, levanta-te") para ressuscitar uma menina. "É o único evangelista que permite ao leitor ouvir um eco eventual das palavras de Jesus em sua própria língua", diz Vermes.


Judeus?

Por essas e outras, a identificação do autor de Evangelho de Marcos como pagão de nascimento -- e mesmo de Lucas ou João, autores de narrativas que parecem muito influenciadas pela cultura grega -- não é tão confiável quanto alguns estudiosos costumavam imaginar. "Eu, por exemplo, acho que Marcos poderia muito bem ter uma origem na Galiléia", diz Ribeiro. "De modo geral, essa dicotomia cultural muito forte entre judeus e pagãos de origem grega que a gente costuma imaginar é relativa. O judaísmo estava sob forte influência helenística fazia tempo."

A influência judaica mais clara é a de Mateus, texto talvez escrito entre os anos 80 e 90 e repleto de referências à Lei de Moisés e às profecias do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias. "Mas, mesmo no caso de Lucas, há um lado judaico bastante forte. A narrativa dele começa e termina no Templo de Jerusalém, por exemplo. Jesus nunca pisa fora do território de Israel na narrativa de Lucas. Isso não me parece à toa", diz Vilson Scholz, professor de teologia exegética da Universidade Luterana do Brasil (RS) e consultor de traduções da Sociedade Bíblica do Brasil.

Scholz diz acreditar que, embora figuras como os apóstolos João e Mateus não tenham escrito pessoalmente os Evangelhos, é possível que as narrativas sejam obra de pessoas de "escolas" ligadas a eles, que teriam transmitido a tradição oral relacionada aos primeiros discípulos em forma escrita. Para Scholz, o Evangelho de Lucas, escrito pelo mesmo autor dos Atos dos Apóstolos (em ambos os casos a obra é dedicada a um patrono conhecido como Teófilo, e há remissões entre um livro e outro), é o que tem associação mais plausível com o autor tradicional.

Explica-se: Lucas teria sido um médico de origem grega e, de fato, sua linguagem é uma das mais polidas e de estilo cuidadoso entre os Evangelhos, diz Scholz. Os Atos dos Apóstolos também usam o pronome "nós" em certas passagens, dando a entender que o narrador estava viajando junto com Paulo. "Eu já acho que Lucas é tão problemático [como autor verdadeiro do Evangelho] quanto os demais", afirma Ribeiro. Ele lembra que há diferenças consideráveis entre o relacionamento de Paulo com os demais membros da Igreja como é retratado em Atos e a maneira como Paulo fala de Pedro e dos demais apóstolos em suas cartas -- nesse caso, Paulo é bem mais agressivo e menos condescendente em suas críticas aos seguidores originais de Jesus.


Testemunhas?

Um detalhe que solapa, ao menos à primeira vista, a idéia de que alguns dos autores do Evangelho presenciaram as pregações de Jesus é a falta de uma identificação de quem escreve no próprio texto, ou mesmo de afirmações diretas de que o escritor viu tais e tais fatos acontecerem. "Isso pode ser apenas um detalhe de gênero literário -- uma tentativa de demonstrar objetividade, por exemplo", pondera Scholz.

A única exceção é o Evangelho de João -- justamente o "estranho no ninho" entre os quatro textos aceitos no Novo Testamento, por não seguir a mesma linha básica de narrativa dos outros três e apresentar uma visão teológica muito desenvolvida e elevada de Jesus, considerado o Verbo de Deus encarnado. Com base nisso, ele seria o texto mais tardio, escrito por volta do ano 100. "Muita gente vê influência da filosofia grega sobre João, mas a divisão clara do mundo entre luz e trevas, que a gente vê nele, já aparece nos Manuscritos do Mar Morto, a poucos quilômetros de Jerusalém", diz Scholz. Em um ou dois trechos, o Evangelho de João diz que "a testemunha viu" os fatos narrados acontecerem.

"Eu acho possível que esse Evangelho remonte a uma testemunha ocular, mas o que ela viu foi retrabalhado pela comunidade à qual ela pertencia", avalia Ribeiro. Seria o misterioso "discípulo amado" de Jesus -- mas esse discípulo certamente não é João, o qual é mencionado separadamente no mesmo Evangelho. "Também vemos uma tensão política entre a comunidade desse discípulo amado e o grupo que seguia Pedro, por exemplo", diz o pesquisador, lembrando que, numa das narrativas sobre o sepulcro vazio de Jesus, Pedro e o tal discípulo correm até a tumba, mas o discípulo amado é o primeiro a chegar. Pedro entra no sepulcro e vê os lençóis que cobriam o corpo de Jesus; o discípulo amado entra depois, "e viu, e creu", diz o Evangelho. Seria uma forma de mostrar a precedência dele sobre Pedro.

No fundo, o que se sabe de seguro sobre os escritores dessas quatro obras-primas da cristandade primitiva está mesmo embutido no próprio texto -- e, como tal, sujeito a interpretações. É muito difícil, por enquanto, colocar uma "cara" nos evangelistas. "Enquanto não houver outras descobertas arqueológicas de peso, ficamos nesse impasse", diz Scholz.

Natal - Um pouco mais sobre os magos...

Em função dos comentários sobre meu post anterior – Jesus – Nascimento e História do Natal – deduzi ser conveniente trazer um pouco mais de informações sobre os “reis magos”…

Diz a Bíblia que “uns magos”, guiados por uma estrela, vieram do Oriente à procura de um recém-nascidoo rei dos judeus. Mas não diz quantos eram, de onde vinham exatamente nem se eram mesmo reis.

Todos os anos, o dia 25 de dezembro, revive a suprema tradição cristã do Natal, quando se comemora o nascimento de Jesus. As pessoas trocam presentes, enfeitam pinheiros com luzes e bolas coloridas e montam presépios. Neles se reconstitui o nascimento de Jesus: a gruta em Belém, o menino na manjedoura, os pastarese os três homens que, segundo a Bíblia, vieram de longe para adorá-lo, trazendo ouro, incenso e mirra.

São os três reis magos, que saíram do Oriente guiados por uma estrela na busca de um recém-nascido: o “rei” prometido.


De fato existiram?

Existiram de fato ou são apenas fruto da imaginação? Uma referência a eles na Bíblia está no evangelho atribuído a Mateus, versículo 2: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos chegaram do Oriente a Jerusalém dizendo: Onde está o “rei dos judeus” que acaba de nascer? Porque nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos adorá-lo.

As dúvidas sobre os reis magos existe na própria igreja. Em seu livro “Jesus Cristo Libertador”, o teólogo brasileiro frei Leonardo Boff pergunta: “Vieram de fato os reis do Oriente? É curioso imaginar uma estrela errando por aí, primeiro até Jerusalém e depois até Belém, onde estava o menino. Por que não se dirigiu diretamente a Belém, mas primeiro resplendeu sobre Jerusalém, estarreceu toda a cidade e o rei Herodes, a ponto deste ter decretado a morte de crianças inocentes? Em que medida nisso tudo vai conto ou realidade?” Segundo Boff, “textos do Antigo Testamento e um fenômeno astronômico teriam motivado o relato dos autores do evangelho de Mateus”.

Os evangelhos foram escritos muito depois da morte de Jesus. O evangelho atribuído a Mateus, por exemplo, foi escrito entre os anos 80 e 85, ou seja, cerca de meio século mais tarde. O teólogo Ivo Storniolo, de São Paulo, acredita que “o evangelho atribuído a Mateus teria criado uma história como se fosse um fato verdadeiro para mostrar o real significado do nascimento do menino”.

Outro teólogo, Euclides M. Balancin, afirma que o evangelho atribuído a Mateus inspirou-se no salmo 72, 0 Rei Prometido, do Antigo Testamento, que fala de um rei ideal que implantaria a Justiça e o Direito. “O que Mateus quer dizer”, interpreta Storniolo, “é que Jesus é o Messias prometido e, reconhecendo isso, os reis das Nações, que seriam os reis do Oriente, vieram trazer-lhe tributos.”


Por que "magos"?

A palavra mago vem do persa “magu” que deu em grego “mágos” e chegou ao português através do latim maga e quer dizer “poderoso”. Os sacerdotes da religião persa, o zoroastrismo, eram chamados de magos. Seus poderes vinham dos conhecimentos de Astronomia e Astrologia que possuíam. Por isso, os reis persas se aconselhavam com eles antes de tomar decisões das mais importantes, como saber qual o melhor dia para resolver questões de Estado, até as mais corriqueiras, por exemplo, o dia mais indicado para tomar um remédio ou mesmo dar uma festa.

Pode-se assim perfeitamente bem especular que tenham sido “magos” persas os viajantes em busca do Messias guiados por uma estrela. Além de conhecer os mistérios do céu, é provável que estivessem também a par das antigas referências à chegada de um novo rei que viria para salvar os homens. Isso talvez explique por que caminharam tanto seguindo uma estrela, à procura do incerto lugar onde teria nascido o Messias.

O Antigo Testamento, com efeito, menciona um profeta de nome Balaão, contemporâneo de Moisés, o fundador do judaísmo (século XIII a.C), que teria dito: Um astro procedente de Jacó se torna chefe: um cetro se levanta procedente de Israel. Um anjo teria falado a Moisés sobre a estrela cuja aparição anunciaria a vinda do salvador. Em Roma? o poeta lírico Horácio, que viveu de 65 a 8 a.C, profetizou o começo de uma nova era sob o signo de Saturnoum dos planetas da conjunção que teria causado a luminosidade conhecida como estrela de Belém.


As mesmas tradições de sempre…

Em todo caso, sempre foi muito comum a tradição popular buscar ligações terrestres para acontecimentos extraordinários que ocorrem no céu, como o aparecimento de luzes misteriosas ou astros magníficos e desconhecidos: obrigatoriamente eles deveriam ser o prenúncio de algo novo e importante na Terra.

Sabe-se tão pouco sobre os magos que até seu número é desconhecido. Jacó de Edessa (640-708), teólogo cristão que escreveu comentários sobre o Antigo e o Novo Testamento, dizia que eles vinham da Pérsia, mas não eram três. Eram homens ilustres escoltados por mais de mil pessoas e seguidos por uma multidão. As primeiras representações da adoração de Jesus mostravam a mesma cena que sobreviveu até hoje: três homens que oferecem ao menino Jesus três presentes: ouro. incenso e mirra. Uma hipótese é que o número de presentes tenha criado a confusão.

Seja como for, os nomes dos magos Melchior, Baltazar e Gaspar são de origem oriental e todos têm a ver com realeza e poder. Melchior do hebreu, quer dizer “rei da luz”: Baltazar, do aramaico, significa Judeus proteja a vida do rei. Gaspar é dos três o que mais possibilidades tem de se referir a um personagem real.

Entre os anos 19 e 65 da era cristã, diz-se que viveu na Pérsia um príncipe de nome Gundofarr, que significa “vencedor de tudo”. Traduzido transformou-se em Gasta e daí em Gaspar A idéia da procedência persa dos magos influenciou até as roupas com que aparecem representados: chapéu redondo na cabeça, camisa curta presa por um cinturão, calças estreitas e uma capa por cima. Exatamente como os reis persas se vestiam.

No altar mór da Catedral de Colônia, na Alemanha, existem os três caixões revestidos de ouro. Dentro deles estariam os restos mortais de Gaspar, Melchior e Baltazar, trasladados da Itália no século XII. Pode ser outro dos tantos mitos que bordam a história dos magos, mas o fascínio que ela exerce sobre os cristãos do mundo inteiro continua. Depois, no dia 6 de janeiro, quando eles teriam chegado a Belém, e a tradição popular preserva e comemora como o Dia de Reis.


Distorções

Em relação a esses famosos “Reis Magos”, temos que a vinda dos mesmos apresenta a deturpação do termo “Megas”, para o latim “Magnus” que tem a mesma raiz sánscrita “Mahat”, utilizada para designar tanto sacerdotes persas, como a adivinhos e astrólogos caldeus (Sumérios). Cabe destacar que, também as tradições persas falavam da chegada de um salvador ou “Sanshyant”, nascido de uma virgem, porém, sem referir ou relacionar qualquer evento astrológico ao fato do nascimento.

Se acredita que, na verdade, os “Magos” tenham sido discípulos de Zoroastro ou Zaratustra, isto é, sacerdotes masdeístas persas, chegados a Jerusalém no tempo da conjunção planetária do ano 7 a.C., e relacionados posterior¬mente para justificar o culto do nascimento. Outros entretanto, consideram que os famosos reis magos eram, na verdade, representantes de alguma ordem secreta ou hermética, que aportaram ao lugar guiados para entregar alguns elementos ou materiais, importantes e necessários para o futuro desenvolvimento de Jesus.

Por outro lado, nada impediria de considerar o fato de que, um grupo de astrólogos persas estivesse a procura do local apenas para observar uma conjunção planetária e durante a viagem, resultassem apanhados pelo avistamento de um estranho objeto e que o mesmo viesse a guiá-los até o local do nascimento, mesmo que passados quase dois meses. Estranho…

Roni Adame

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Jesus – Nascimento e História do Natal

História e Religião

Mais um 25 de Dezembro. Devido à minha imensa curiosidade e interesse a respeito de Jesus - mais especificamente o Jesus histórico - me sinto quase na obrigação de divulgar alguns fatos sobre esta data para que outros poucos curiosos também possam encontrar mais facilmente informações a respeito.

Antes de qualquer outra informação, penso ser conveniente chamar a atenção para a necessidade de separar o Jesus histórico do religioso. É claro que essa questão é monstruosamente complexa. Mas me refiro aqui apenas ao fato muito comum das pessoas confundirem a informação religiosa como sendo também a histórica.

Isso se deve principalmente ao simples fato de existir apenas uma via de informação sobre Jesus para o púbico. Seja nas igrejas, escolas ou núcleos familiares, a única informação transmitida ao público é a informação religiosa. As informações históricas simplesmente não são transmitidas. Com isso, a informação religiosa, a qual não tem qualquer vínculo com a informação histórica, é transmitida como sendo a única versão dos fatos.

Historicamente, pouquíssimo se sabe de fato sobre Jesus. E não é diferente com a igreja - me refiro a todas as igrejas, principalmente, católica e protestante. Especificamente sobre o natal, a igreja não sabe de fato quando Jesus nasceu. Mas teve que adotar uma data, de forma estratégica e conveniente, para instruir seus fiéis e instituir as devidas festas e rituais. Afinal, nunca foi nada interessante para a igreja dizer ao seu público que desconhece algo, principalmente sobre seu principal alicerce: Jesus.

Mitra e o Solstício de Inverno

De fato, o 25 de Dezembro já é comemorado muito antes do nascimento de Jesus, o qual, segundo dados históricos, tem mais chances de ter ocorrido de fato no entre os anos 7 e 6 a.C. O que conhecemos hoje como sendo o "Natal" já ocorria há aproximadamente 7 mil anos. Trata-se da homenagem de "nascimento" do deus persa Mitra, que, essencialmente, representava a luz. Como a festa ao deus Mitra chegou aos dias de hoje como sendo o nascimento de Jesus? Vamos à sequência de eventos.

A história do 25 de Dezembro é tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o "renascimento" do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte.

Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: a festa era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.

A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno - pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno na verdade acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, esse culto é o que daria origem ao nosso Natal. Ele chegou à Europa lá pelo século 4 a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.

Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios a Mitra. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes. Os mais animados se entregavam a orgias - mas isso os romanos faziam o tempo todo.

Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo. Mas a igreja ainda não comemorava oficialmente o Natal – entre outros motivos, por não saber o dia em que Jesus havia nascido. Embora o período tivesse sido mais ou menos calculado (a data seria entre 7 e 6 a.C.), em nenhum momento, nos primeiros 200 anos do cristianismo, o dia é mencionado.

Mas a igreja relutou em celebrar o nascimento de Jesus. Naquela época, era comum celebrar a morte de pessoas importantes e não o nascimento. A igreja sempre fez questão de lembrar o sacrifício do filho de Deus. Solenizar o aniversário de Jesus com festa, da mesma forma como se honrava um faraó ou Herodes, era indecência para os puritanos. É curioso observar que, mesmo depois de aprovada, várias vezes se cogitou terminar com a festa pelo nascimento de Jesus. Algumas reformas protestantes, a partir do século 15, conseguiram fechar igrejas que insistiam na celebração do Natal.

06 de Janeiro

A especulação de fato sobre o nascimento de Jesus e o natal, por parte da igreja, só começou por volta dos séculos 3 e 4, em resposta aos festejos promovidos pelos romanos com orgias e banquetes em reverência a divindades pagãs.

Nessa época, pelo menos oito datas diferentes foram propostas para o nascimento de Jesus. Duas datas, entretanto, prevaleceram e são usadas até hoje. Primeiro, veio o 6 de janeiro, uma comemoração feita no Oriente para o suposto dia em que Jesus fora batizado. A igreja primitiva, principalmente no Oriente, festejava no dia 6 de janeiro a Epifania do Filho de Deus, ou seja, a aparição de Cristo na Terra e sua revelação aos homens.

25 de Dezembro

Como os cristãos fizeram com muitas outras datas, aproveitando antigas cerimônias pagãs e as recobrindo com sua liturgia, a celebração de 6 de janeiro tomou o lugar de grandes festas em homenagem ao deus egípcio Osíris e ao grego Dionísio. No século IV, os cristãos celebravam na noite de 5 para 6 de janeiro o nascimento de Cristo e, durante o dia 6, seu batismo.

Mas os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século 4, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado.

Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade. O 6 de janeiro ficou, então, reservado ao dia em que Cristo teria aparecido aos três "reis" magos, herança das lendas epifânicas, nas quais os deuses se manifestam aos seres humanos. Mais adiante, mesmo após a futura e decisiva intervenção do imperador Constantino nessa questão, a Epifania continuou sendo festejada pelos cristãos orientais como sendo o dia do nascimento de Jesus. A Igreja Ortodoxa armênia, mesmo atualmente, comemora o “natal” nesse dia.

É importante esclarecer que as escolhas das datas não foram aleatórias. Ambas rivalizavam com festas pagãs realizadas no mesmo período, como a da religião persa que celebrava o Natalis Invicti Solis, a do deus Mitra e outras decorrentes do solstício de inverno e dos cultos solares entre os celtas e germânicos. O 25 de dezembro foi uma conveniência para facilitar a assimilação da fé cristã pela massa de pagãos.

Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.

Outra contribuição do norte foi a idéia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos. Estava nascendo o "Papai Noel".

Papai Noel

Ásia Menor, século 4. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam um jeito de sair da miséria: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento – não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E viveram felizes para sempre, sem o fantasma de entrar para a vida, digamos, "profissional". Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.

Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.

Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal).

Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século 17 – daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da idéia.

Sua transformação em símbolo natalino aconteceu na Alemanha com o nome de Santa Claus. A figura do Papai Noel, como a conhecemos hoje, foi obra do cartunista americano Thomas Nast, que publicou seu cartum em 1881.

3 "Reis" Magos

Os evangelhos relatam que pessoas ilustres foram oferecer presentes ao recém-nascido. Afirmam também que eram ricos soberanos do Oriente. Mais uma vez a informação religiosa toma um caminho diferente da informação histórica. Mas podemos entender porque.

Naquela época, naquela região e naquele contexto, "mago" significava alguém vinculado a especialidades como astrologia e astronomia. Na época ambas as especialidades caminhavam juntas. Mas o fato é que até hoje ignora-se quantos estavam envolvidos com a história do nascimento.

O autor do evangelho de Mateus incluiu os magos em seu relato sobre a natividade porque os estrangeiros representariam a sabedoria do mundo, que se curvaria diante da criança-messias. Mas o autor do evangelho não precisou o número de magos. Como eles teriam oferecido à criança 3 presentes - ouro, incenso e mirra - a "tradição" concluiu que eram 3 magos, inclusive com a intenção de posteriormente relacionar esse número com o conceito da santíssima trindade.

Para o autor do evangelho de Mateus, a visita dos magos seria a realização de profecias sobre a homenagem prestada pelas nações pagãs ao deus de Israel. Em função dessas profecias e de outras do antigo testamento sobre a vinda do messias, esse evangelho viria a ser alterado diversas vezes pelos vários concílios que a igreja faria. Um dos exemplos dessas alterações posteriores foi a inclusão do termo "reis" ao magos. Uma alteração que teve como objetivo apenas intensificar a importância da chegada de Jesus à Terra.

Nessa transformação de magos em "reis" magos, a "tradição" optou por torná-los símbolos das 3 nações oriundas dos filhos de Noé, ficando da seguinte forma: Melquior, o etíope, descendente de Cam; Baltasar, o semita, descendente de Sem e Gaspar, descendente de Jafé. Desta forma, os magos passaram a ser representados com traços dos 3 continentes então conhecidos: árabe, para a Ásia; negro, para a África e branco, para a Europa.

Roni Adame

domingo, 30 de agosto de 2009

Richard Dawkins em Parati

Como o objetivo deste blog é a reflexão, penso ser fundamental transmitir um pouco do modo de pensar de um dos cientistas que rodam o mundo buscando promover a mesma coisa. Com isso transcrevo em seguida a primeira parte da entrevista concebida por Richard Dawkins ao repórter Silio Bocanera na FLIP deste ano em Parati, transmitida posteriormente pelo programa Milênio, da Globo News, em duas partes. Boa leitura a todos.


O nome Richard Dawkins evoca dois outros ainda mais conhecidos: Deus e Charles Darwin, embora não necessariamente nessa ordem de importância para o cientista e escritor britânico que o Milênio encontrou no Brasil.

Quem não leu "Deus, um Delírio" ou "O Gene Egoísta" ou outro dos muitos livros do biólogo Richard Dawkins sobre a religião ou evolução poderia cometer a imprudência de achar que ele considera Darwin e Deus a mesma pessoa. Mas quem conhece a obra do ex-professor de Oxkord, nascido no Quênia, sabe que ele considera essa mistura um "pecado", ou melhor, um mal entendido, porque "pecado" não é palavra no vocabulário dele.

Ciência e religião não se misturam no mundo de Dawkins. Ele endossa a primeira e rejeita a segunda. Uma postura audaciosa para trazer a um país tão religioso quanto o Brasil. Mas Dawkins não foge desses desafios e trouxe sua visão e experiência convidado pela organização da FLIP - Festa Literária de Parati - Rio de Janeiro. Foi lá, durante a apresentação do professor Dawkins, que gravamos este Milênio especial.

Silio Bocanera: Falaremos sobre evolução em instantes, mas antes vamos começar com o seu outro livro, que fala sobre Deus (Deus, um Delírio). Este livro já foi traduzido em 31 idiomas diferentes e está vendendo bem em muitos países, incluindo países muito religiosos, como o Brasil. Então uma pergunta me vem à mente. O senhor acha que existem muitos ateus enrustidos se escondendo e envergonhados de expor sua falta de crença?



Richard Dawkins: Eu espero que existam e acredito que existam. Eu viajei muito pelos EUA divulgando "Deus, um Delírio" e estive, particularmente, em regiões dos EUA que são descritas como o "cinturão bíblico". Portanto, eu estava esperando reações de todo tipo mas, em todos os eventos a que compareci, encontrei platéias imensas, muito entusiasmadas. Eram milhares de pessoas que, aparentemente, concordavam comigo que Deus não existe e que estaríamos melhor se não acreditássemos n'Ele. Eu acredito que, exatamente como você diz, existem muitos ateus enrustidos, pelo menos nos EUA, que nunca ousaram se expor e admitir o que realmente são. Quando fui, por exemplo, a Oklahoma, supostamente um estado bastante religioso, três mil pessoas compareceram ao auditório. No final, as pessoas se levantaram, se entreolharam e perceberam que não estavam sozinhas. Haviam encontrado semelhantes mesmo em Oklahoma.

Silio Bocanera: Ou mesmo no Brasil... Onde encontra maior resistência em relação às suas idéias? Não só geograficamente, como Oklahoma, ou o "cinturão bíblico", mas, intelectualmente, quem demonstra maior resistência?

Richard Dawkins: Não quero deixar a impressão de que não houve resistência em Oklahoma. Havia um parlamentar em Oklahoma que tentou suspender a minha palestra e censurar a Universidade de Oklahoma por ter me convidado. Forças politicamente poderosas se opuseram às minhas idéias. Já críticas sérias... Não acho que existam muitas críticas sérias. As críticas mais sérias que recebo vem de pessoas que dizem: "Sou ateus, mas...". Estou muito habituado a essa frase: "Sou ateu, mas...". Me acusam de ser mal-educado, descortês ou insuficientemente simpático com pessoas religiosas. A propósito, acho isso um equívoco. Há um sentimento generalizado em que todos crescem acreditando de que não se deve criticar a religião, de que é proibido criticar a religião. Assim, mesmo uma crítica amena a uma religião tende a soar agressiva ou ruidosa. Na verdade, eu adoraria pensar que "Deus, um Delírio" é um livro engraçado. Espero que o humor transpareça na versão traduzida.

Silio Bocanera: O livro deixa claro que o senhor preferiria ver um mundo sem religião. Na contramão disso, muitos argumentariam que a religião pode servir de consolo a muita gente. Por exemplo, na perda de um ente querido, o crente se consola em poder encontrá-lo "do outro lado".

Richard Dawkins: Sim... Essa é uma questão importante. Sem dúvida, as pessoas buscam consolo na religião. A primeira consideração a fazer é que, por algo ser reconfortante e consolador, isso não necessariamente o faz ser verdadeiro. Seria logicamente inconsistente sugerir que aquilo que nos faz feliz seja necessariamente verdadeiro. Há pessoas que não preferem não ouvir a verdade. Seria um bom teste procurar saber quem gostaria de ser avisado pelo médico quando estivesse com uma doença fatal. Alguns prefeririam não saber que tem uma doença fatal, outros prefeririam que o médico contasse a verdade. E os médicos costumam julgar se seu paciente necessita ouvir a verdade ou se é um paciente que prefere ignorar a verdade. Esse seria um caso análogo. Não acho que poderíamos dizer que seria justificável deixar de escrever um livro por receio de magoar alguém. Quem for ficar incomodado com o meu livro, não o leia.

Silio Bocanera: Muitos também argumentariam em favor da religião citando o fato de ela ter servido de inspiração para obras de arte magníficas ao longo do tempo, desde a Capela Sistina à música de Bach, da qual sei que é fã. A inspiração é um fator importante?

Richard Dawkins: Não há dúvida de que a religião serviu de inspiração para grandes obras de arte, música, poesia e literatura. A própria Bíblia é uma leitura excelente, pelo menos na versão inglesa do século 17, com a qual tenho bastante familiaridade. Suponho que a Bíblia em português também seja uma leitura excelente. Acredito piamente que toda criança deve aprender sobre a Bíblia e deve ler a Bíblia. Não há como apreciar literatura ou história européia sem conhecer a Bíblia. Portanto, acredito piamente nisso. Mesmo se nos livrássemos da religião, a história e a literatura bíblica continuariam sendo importantes, assim como os deuses gregos são importantes para entender literatura. Não podemos apreciar grande parte das obras literárias sem conhecer Zeus ou Apolo e não podemos apreciar Wagner sem conhecer os deuses nórdicos. Ninguém acredita mais neles, mas eles fazem parte da nossa herança cultural. Algo como a Capela Sistina ou a música de Bach é evidentemente muito bonito e importante, mas isso poderá, de algum modo, corroborar a alegação de que há validade na religião? É claro que não! Grandes artistas são atraídos pelo dinheiro. Ao longo da História, os ricos sempre encomendaram as obras de arte que quiseram. Na época de Michelangelo, ou na época de Bach, o dinheiro estava nas mãos da Igreja. Por isso, grandes obras foram feitas para a Igreja. Isso não significa que é verdade... Eu me atreveria a dizer que, por exemplo, a "Paixão Segundo São Mateus" é uma estória muito tocante. Não é apenas a música de Bach que a torna tocante, pois a estória em si é tocante. Portanto, é possível apreciar o drama e as emoções de grandes ficções. É possível apreciar a história da Bíblia, mesmo que ela seja uma ficção.

Silio Bocanera: Com relação à sua interpretação da Bíblia como ficção, o conceito de que o mundo foi criado em poucos dias, há cerca de seis mil anos e tudo de uma vez só entra em enorme contradição com as evidências científicas. O senhor acha que essa parte deveria ser rejeitada?

Richard Dawkins: Bem, o mundo está repleto de lindos mitos sobre a origem. Antropólogos poderiam listar centenas, ou até milhares, de mitos de origem cheios de beleza poética e que valham a pena serem estudados como literatura ou artefatos culturais. O mito de origem que nos é mais familiar, ou seja, o mito judaico, que acredito ter origem na Babilônia, não é mais nem menos bonito do que qualquer outro. A coisa mais chocante para Darwin, se ele estivesse vivo, é ver como em muitos lugares do mundo ainda se encara literalmente esse mito de origem. Como você disse, "o mundo foi criado em 6 dias há 6 mil anos"... Isso não está ligeiramente errado, está enormemente, colossalmente, errado. Poderíamos ilustrar isso dizendo que, considerando 4,6 bilhões de anos como a idade verdadeira da Terra, acreditar que o mundo só tem seis mil anos é o mesmo que acreditar, e já fiz esse cálculo, que a largura da América do Norte - de Nova York a São Francisco - equivale a oito metros.

Silio Bocanera: Como evolucionista e darwinista, o senhor evidentemente não crê em vida após a morte, o que serve como propósito de vida a muitas pessoas. Segundo a sua concepção, qual o propósito da vida? É a vida em si?



Richard Dawkins: Bem... O argumento biológico para o propósito da vida é o tema do meu primeiro livro, "O Gene Egoísta". No nível científico, o propósito da vida é a propagação do DNA. Há inspiração poética nisso, mas talvez isso não seja muito satisfatório no nível individual. Indivíduos criam os próprios propósitos de vida. Cada um de nós, em maior ou menor escala, vive segundo os nossos próprios propósitos, o que pode ser escrever um livro, compor uma sinfonia, ganhar uma partida de futebol ou criar os filhos com saúde e felicidade. Há diversos propósitos que indivíduos podem criar. Todo mundo pode criar. E é melhor criá-los, pois a vida é uma só. Crer que esta é a única chance que teremos aprimora a nossa visão de mundo e nos faz valorizar mais a vida. Nos faz levar a vida mais a sério, mas também nos faz aproveitar plenamente a vida, pois ela é uma só. Viver esta vida aquém da intensidade total por acreditar que haverá outras é um desperdício terrível do imenso privilégio que é estar vivo. Cada um de nós é privilegiadíssimo. É só calcular a probabilidade que tínhamos para nascer. Nossos pais precisaram se conhecer, precisaram ter relações sexuais num momento determinado, um espermatozóide específico teve que encontrar um óvulo específico, o mesmo processo ocorreu com os nossos avós, bisavós, seguindo essa "peregrinação" até a origem da vida. Ninguém aqui tem o direito de ansiar por existir. Nós existimos por um fantástico acaso. Não desperdicem a vida, não haverá outra.

Silio Bocanera: Seus argumentos ficam ainda mais polêmicos quando discutem o propósito da vida e a falta de crença na vida após a morte. Algumas pessoas dizem que quem não crê na vida após a morte e em princípios religiosos não pode ter princípios morais. Sei que o senhor não aceita isso.

Richard Dawkins: Não. Certo... Há uma concepção de que nós só seguimos uma moral porque acreditamos na vida após a morte e, portanto, batalhamos para sermos recompensados com a salvação do Paraíso ou para evitarmos os castigos do Inferno, o que, efetivamente, foi o que você acabou de dizer. Que motivo detestável para sermos bons e que motivo horrível e imoral para sermos éticos! Uma vez, quando participei de um programa de rádio nos EUA no qual ouvintes telefonavam para fazer perguntas, um homem do Texas ligou afirmando que, se não acreditasse em Deus e não tivesse medo de ir para o Inferno, ele mataria o vizinho. Eu perguntei: "Está falando sério? Se não tivesse medo de Deus, você realmente mataria seu vizinho?" E ele respondeu: "Com certeza. Eu estupraria a primeira mulher que visse na frente." Eu não consigo acreditar que existam muitas pessoas que só evitam fazer coisas ruins porque têm medo de Deus. Christopher Hitchens, um colega meu, que escreveu um livro na mesma época que eu, chamado "Deus não é Grande", coloca da seguinte forma: "Não matarás" é um dos dez mandamentos da Bíblia, e ele, sarcasticamente, diz: "Não é possível imaginar com seriedade que, quando Moisés desceu da montanha com as tábuas contendo a inscrição 'Não matarás', as pessoas pensaram: 'Não matarás? Ah, entendi! Achávamos que matar era uma boa idéia'."

Silio Bocanera: Em outro livro que o senhor escreveu, "O Capelão do Diabo", publicado no Brasil há alguns anos - a propósito, o senhor deixa claro que o capelão do Diabo não é o senhor - o senhor escreveu uma carta à sua filha, então com 10 anos, alertando contra a influência da tradição, da autoridade e da revelação. Poderia nos explicar melhor?



Richard Dawkins: Tem razão. O livro "O Capelão do Diabo" faz referência a Darwin que, ao falar da crueldade da natureza, e a seleção natural é cruel mesmo, ele diz: "Que livro um capelão do Diabo teria escrito a respeito dos baixos, equivocados, cruéis, terríveis e perdulários meios da natureza?" Não sei se os termos são mesmo esses. O livro se chama "O Capelão do Diabo", mas não desejo ser o capelão do Diabo. O último capítulo do livro - que é uma coleção de ensaios publicados anteriormente - é uma carta endereçada à minha filha, Juliet, então com 10 anos. Quando o livro foi publicado, eu fiz a dedicatória para ela, e ela já tinha 18 anos. Naquele capítulo, na carta, uma carta aberta a ela, aos 10 anos, eu não pedi especificamente que ela se tornasse atéia. Eu jamais faria isso. Crianças não devem ser doutrinadas. Eu pedi que ela refletisse por conta própria. Eu tentei explicar a ela. O capítulo começa assim: "Como sabemos o que sabemos?" Eu respondi: "Através das evidências." Eu expliquei, sob um ponto de vista científico, o que significa "evidência" e depois alertei-a contra os péssimos motivos que as pessoas costumam dar quando acham que sabem algo. São eles: revelação, tradição e autoridade. Eu escrevi: "Não são boas razões para se acreditar em algo. A evidência é a única boa razão para se acreditar em algo." Eu gostaria que toda criança de 10 anos lesse esse capítulo. Tenho muito cuidado em evitar doutrinar crianças com ateísmo, assim como elas não devem ser doutrinadas com religião. Uma das piores coisas que podemos fazer com uma criança é dizer a ela: "Você é cristão." Ou: "Você é muçulmano." "Você é católico." "Você é presbiteriano." Ou seja o que for. Uma criança não tem idade para discernir, ela não tem idade para ser católica, muçulmana ou protestante. Deixe a criança amadurecer e tomar sua própria decisão quanto à crença que quer seguir. Se um dia ouvirem alguém dizer que tal criança é católica, protestante ou muçulmana, desconfiem. É um processo de conscientização análogo ao processo de conscientização feminista. Não sei como funciona em português, mas, em países anglófonos, as feministas nos ensinaram, com bastante sucesso, a não usar a palavra "homem" ao se referir à "humano" e a não usar a palavra "ele" se se referir também a "elas". Isso é muito difícil de fazer em inglês e imagino que seja ainda mais difícil em línguas com distinções de gênero. Mas as feministas triunfaram no processo de conscientização. Sempre que ouvimos "o futuro do homem", nós desconfiamos, relutamos e pensamos: "Não deveríamos dizer isso". Do mesmo modo, eu gostaria que todos aqui desconfiassem quando ouvirem alguém falar sobre uma criança católica. Crianças católicas não existem! Existem crianças com pais católicos.

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Para aqueles que desejarem assistir na íntegra as duas partes do programa, basta acessar os links abaixo:

Os mundos paralelos de Richard Dawkins: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1101285-7823-OS+MUNDOS+PARALELOS+DE+RICHARD+DAWKINS,00.html
As polêmicas de Richard Dawkins: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1106035-7823-AS+POLEMICAS+DE+RICHARD+DAWKINS,00.html

Roni Adame

domingo, 23 de agosto de 2009

Jesus e o Natal fora de época

Natal fora de época? Para os católicos e protestantes claro que sim. Mas não para outros grupos cristãos.

URÂNTIA


Livro de Urântia

21 de Agosto é a data de nascimento de Jesus. Isso segundo a Fundação Urântia e sua obra mundialmente conhecida, o Livro de Urântia. O Livro de Urântia é uma obra literária, composta por 197 documentos escritos em Inglês arcaico, traduzido recentemente para mais idiomas e que serve como base ideológica de alguns movimentos religiosos e filosóficos. Nas suas páginas, o livro refere ter sido compilado por um corpo de seres supra-humanos das mais diversas ordens, o texto fornece uma abrangente perspectiva das origens, história e destino humanos, constituindo para os seus leitores assíduos uma nova revelação para a humanidade.

A identidade dos autores materiais do livro é desconhecida e nunca foi reclamada, existindo por este motivo muitas teorias a respeito da sua edição e autenticidade. O próprio livro refere que é assim para que nenhum humano possa ser proclamado "profeta" ou admirado de alguma forma por tal obra literária.

O Livro de Urântia diz que Micael de Nebadon, criador e soberano deste universo local (Nebadon), fez sua sétima e última encarnação neste planeta como Jesus de Nazaré e teria nascido em 21 de Agosto do ano -7. No site da AUB – Associação Urântia do Brasil – há um convite a todos para comemorarem o aniversário de Jesus com o grupo de leitores de São Paulo. Mas o aniversário de Jesus na data de 21 de Agosto é comemorado por pessoas do mundo todo.

O conteúdo do Livro de Urantia foi amplamente difundido pelo mundo com a ajuda da saga literária do jornalista e escritor Juan José Benítez Lopez (J. J. Benítez): Operação Cavalo de Tróia, que consta atualmente com oito volumes. Benítez, no primeiro volume da saga, agradece à fundação Urântia por ela ter permitido que ele “bebesse em suas fontes”. J. J. Benítez complementa a narração feita na saga Operação Cavalo de Tróia com a publicação de Rebelião de Lúcifer e busca explicar melhor o que está por trás de tudo isso ao publicar O Testamento de São João.

Diversas versões a respeito de Jesus têm adeptos pelo mundo todo. O Livro de Urântia não é a única. Uma outra com muita semelhança existe no livro UCEM – Um Curso em Milagres.

UCEM

UCEM

Um Curso Em Milagres - UCEM (também conhecido como ACIM em inglês), é um livro considerado por seus alunos como um "caminho espiritual". Escrito originalmente em inglês entre 1965 e 1972 pela psicóloga Helen Schucman. De acordo com Helen, ela e o psicólogo William Thetford "escreveram" o livro por meio de um processo proveniente de canalização que Schucman chamou de "ditado interior". Helen Schucman disse que a fonte da sua canalização foi Jesus Cristo.

Os ensinamentos do curso foram comparados com as premissas fundamentais da religião oriental. No entanto, ele utiliza a terminologia tradicional cristã. J. Gordon Melton constata que ele é mais popular entre aqueles que estão desiludidos pelo cristianismo tradicional. Desde a primeira vez em que ficou disponível para venda em 1976, teve mais de 1,5 milhões de cópias vendidas no mundo inteiro em dezesseis idiomas diferentes. O livro aborda um curso você irá se deparar com vários termos que são de domínio da área de psicologia, tais como: projeção, separação, sistema delusório, sonhos, alucinação, negação, defesas, insanidade, ego, fantasia, culpa, e percepção.

O Curso é composto de três livros: o Texto de 721 páginas, o Livro de Exercícios para estudantes de 512 páginas e o Manual de Professores de 94 páginas.

Segundo informações de seus adeptos, trata-se um sistema de pensamento que, quando levado ao último entendimento, permite a conquista de um estado perene de paz, onde a certeza habita na vivência do reconhecimento da unidade em si mesmo e com Deus, onde o amor a tudo abrange e não deixa espaço para opostos, onde nada real pode ser ameaçado, e onde o medo não tem significado diante da eterna condição de impecabilidade de um ser divino e eternamente perfeito, visto que é herdeiro incondicional de todos os atributos do seu Criador.

Ainda segundo seus adeptos, seria um modo de pensar definitivo, onde perguntas como: de onde vim, prá onde vou, o que estou fazendo aqui, onde estou, assim como todas as questões de caráter existencial são finalmente respondidas, visto tratar-se de um sistema de pensamento onde mistério é algo impossível para todos que sinceramente queiram ver a verdade.

Hoje existem até mesmo empresas que se autodenominam “consultorias existenciais”, baseadas totalmente no curso UCEM. Como nem todos tem a mesma ambição, UCEM pode também ser facilmente encontrado no site do Mercado Livre e por um custo incomparável com o custo de uma “consultoria existencial”.

COMANDO ASHTAR

Ashtar Sheran

Tanto o Livro de Urântia como o livro Um Curso em Milagres abordam a divindade e também trazem, ainda que com formatos alternativos, o conceito cristão da trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Mas também existem versões de Jesus onde é visto de forma mais moderna, nem tanto divina e mais espacial como a do “Comando Ashtar” (também conhecido como Comando Intergaláctico ou Frotas da Cruz Solar), o qual seria composto por milhares de espaçonaves de muitos sistemas solares pertencentes à Grande Fraternidade de Luz, cujo Comandante em Chefe seria “Ashtar Sheran” (o Sol que mais brilha), sendo a orientação espiritual dirigida pelo "Senhor Sananda", mais conhecido como "Senhor Jesus" no planeta Terra.

Nessa versão espacial, todos – as sementes estelares do ofício do Cristo – obedecem ao Cristo Cósmico e estariam aqui para auxiliarem a Terra e sua humanidade, no decorrer do atual ciclo de purificação planetária e realinhamento polar, o que levará a Terra de 3ª para 4ª e 5ª dimensões do espaço-tempo, juntamente com os seres resgatáveis que ascencionarem suas consciências tridimensionais, seja lá o que signifique isso tudo.

Essa versão espacial do Cristo Sananda é também muito difundida e muito bem aceita, conquistando inúmeros adeptos ao redor do mundo todo, tendo em vista sua relação estreita com um fenômeno moderno altamente misterioso e atraente: os OVNI’s, naves espaciais, discos voadores e seres extraterrestres.

Ainda sobre Ashtar Sheran, sugiro a leitura do seguinte artigo: Ashtar Sheran - Mito ou Realidade?.

JESUS HISTÓRICO e o PROBLEMA DO NASCIMENTO

Tendo em vista os diferentes segmentos inspirados por Jesus nos dias de hoje, seria tão absurdo comemorar o “natal” em 21 de outubro ao invés de 25 de dezembro? Nem um pouco. Ao contrário do que possa parecer, não existe uma data oficial para o nascimento de Jesus. Até mesmo quem o lançou no mercado – a igreja – reconhece que isso não se sabe. Mas temos também que levar em conta algumas informações importantes sobre o contexto histórico que envolve a questão.

Houve um tempo em que a Igreja não comemorava oficialmente o Natal – entre outros motivos, por não saber o dia em que Jesus nasceu. Embora o período tivesse sido mais ou menos calculado (a data seria no ano 6 a. C.), em nenhum momento, nos primeiros 200 anos do cristianismo, o dia é mencionado. A especulação só começou por volta dos séculos 3 e 4, em resposta aos festejos promovidos pelos romanos com orgias e banquetes em reverência a divindades pagãs.

Nessa época, pelo menos oito datas diferentes foram propostas para o nascimento de Jesus. Duas datas, entretanto, prevaleceram e são usadas até hoje. Primeiro, veio o 6 de janeiro, uma comemoração feita no Oriente para o suposto dia em que Jesus fora batizado – a Igreja Ortodoxa armênia comemora o “natal” nesse dia.

Em 194 d. C., Clemente de Alexandria propôs a data de 19 de novembro do ano 3 a. C., enquanto outros pretendiam que o nascimento ocorresse em 30 de maio ou 19/20 de abril. Mais tarde, em 214 d. C., Epifânio propôs do dia 20 de maio. Nessas datas existem confusões entre a época da concepção e do nascimento. No entanto, tais datas parecem concordar com a velha tradição de que Jesus teria sido concebido na primavera e nascido em meados do inverno (essas estações referem-se ao Hemisfério Norte).

A partir do ano 336, quando o imperador Constantino já havia declarado o cristianismo como a religião do Império Romano, foi adotado o 25 de dezembro, data adotada pela igreja ocidental. O 6 de janeiro ficou, então, reservado ao dia em que Jesus teria aparecido aos três Reis Magos, herança das lendas epifânicas, nas quais os deuses se manifestam aos seres humanos.

As escolhas das datas não foram aleatórias. Ambas rivalizavam com festas pagãs realizadas no mesmo período, como a da religião persa que celebrava o Natalis Invicti Solis, a do deus Mitra e outras decorrentes do solstício de inverno e dos cultos solares entre os celtas e germânicos. “O 25 de dezembro foi uma conveniência para facilitar a assimilação da fé cristã pela massa de pagãos”, admite Mario Righetti, um dos mais renomados intelectuais católicos, em sua obra História da Liturgia, de 1955.

“Entre os estudiosos do Novo Testamento e das origens do cristianismo, é consenso que Jesus não nasceu em 25 de dezembro", afirma o cientista da religião Carlos Caldas, da Universidade Mackenzie, em São Paulo.

Na Bíblia, o evangelho de Lucas afirma que Jesus nasceu na época de um grande recenseamento, que obrigava as pessoas a saírem do campo e irem às cidades se alistar. Só que, em dezembro, os invernos na região de Israel são rigorosos, impedindo um grande deslocamento de pessoas.

"Também por causa do frio, não dá para imaginar um menino nascendo numa estrebaria. Mesmo lá dentro, o frio seria insuportável em dezembro", diz Caldas. O mais provável é que o nascimento tenha ocorrido entre março e novembro, quando o clima no Oriente Médio é mais ameno.

Definir quando nasceu Jesus exige uma profunda investigação histórica.

O problema começa em 525 d.C., quando Dionísio, o Pequeno, ao fixar o nascimento de Jesus em 25 de dezembro do ano 754 d. C. urbe condita (depois da fundação de Roma), efetuou um erro de cálculo da ordem de pelo menos cinco anos. Ele não havia considerado nem o zero (algarismo que seria introduzido na Índia no século IX a. C.) nem os quatro anos que o Imperador Augusto reinou com o seu próprio nome de batismo, Otávio.

Segundo o evangelho de Matheus, Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, que faleceu no ano 4 a.C., talvez nos meses de abril ou maio. Essa última conclusão prende-se ao fato de a morte de Herodes ter ocorrido antes da Páscoa dos judeus, e ter sido precedida por um eclipse da Lua. Ora, como o único eclipse lunar visível em Jericó foi o da noite de 12 para o dia 13 de março do ano a. C., como foi mencionado por Flavius Josephus, supõe-se que a morte de Herodes ocorreu provavelmente no mês que se seguiu ao eclipse. Em síntese: tudo indica que Herodes morreu entre 13 de março e 11 de abril, pois foi nesse último dia que se iniciou a Páscoa dos judeus.

Uma outra ocorrência que tem auxiliado os historiadores foi o massacre dos inocentes, quando todas as crianças de menos de dois anos foram sacrificadas por ordem de Herodes, que se baseou nas informações dos Magos para enviar os seus soldados a Belém, a fim de matar o novo Messias que ele tanto temia. Por esse fato se concluiu que Jesus, na época, deveria ter menos de dois anos. Seria conveniente lembrar, por outro lado, que essa data pode corresponder a concepção e não ao nascimento, pois entre os orientais era tradição iniciar a contagem da idade a partir daquele instante.

Um outro ponto de referência na fixação da data de nascimento de Jesus foi a época do recenseamento ordenado pelo Imperador Augusto, que foi executado por Quirino, governador da Síria. Se aceitarmos o termo recenseamento como censo, isto é, como um inventário de população, a data correspondente será -7 ou -6. Todavia se tomarmos, como o fazem alguns autores, esse termo no sentido de cens, ou seja, de imposto, que deve ter sido posterior de um a dois anos ao citado inventário, é aceitável supor que o mesmo ocorreu 5 a 4 anos a.C.

Considerando todos esses elementos, chegamos à conclusão de que a data de nascimento de Jesus deve situar-se entre os anos 5 a 7 a.C.

Segundo os relatos da Bíblia, a qual não pode ser considerada um documento válido para o estudo sobre o Jesus histórico, o nascimento de Jesus pode ser determinado em função do de São João Batista. Assim Zacarias, o pai de João Batista, foi o sacerdote da travessia de Abia (Lucas 1.8) que teria servido no templo na sexta semana depois da Páscoa, semana anterior ao Pentecoste. Como todos os "sacerdotes" também serviram durante o Pentecoste, Zacarias teria deixado Jerusalém para sua casa no décimo segundo dia do mês do calendário israelita Sivan, ou seja, em 12 de junho do nosso calendário. Ora, como Isabel, sua esposa, concebeu seu filho depois do seu retorno (Lucas 1.24) conclui-se que João Batista deve ter nascido 280 dias mais tarde, ou seja, nas vizinhanças do dia 27 de março. Lucas (1.36) registrou ser Jesus seis meses mais jovem que João Batista, o que faz ter o nascimento de Jesus ocorrido em setembro seguinte, ou seja, no outono do ano 7 a.C. A primitiva tradição cristã registrava que Jesus nasceu um dia depois de um Sabbath judeu, isto é, em um domingo.

Crenças astrológicas tradicionais indicam, como dia mais provável, o sábado, dia 22 de agosto de 7 a.C. Seria conveniente lembrar que no calendário judeu o dia começa ao pôr-do-Sol, de modo que se considerarmos a legenda que Jesus nasceu depois do pôr-do-Sol, podemos aceitar que o seu nascimento ocorreu em 21 de agosto do ano 7 a.C.

Portanto, segundo relatos da Bíblia e crenças astrológicas, os seres que teriam “escrito” Livro de Urântia teriam razão em comemorar o aniversário de Jesus em 21 de Agosto. Será? Bem, historicamente não sabemos e é muito provável que nunca venhamos a saber. Então, assim como quase tudo que pensamos saber a respeito de Jesus transita do âmbito das crenças, e colocando em prática a tolerância sugerida por Victor Hugo, meus parabéns a esse personagem tão intrigante.

Roni Adame